A violência contra a imprensa ganhou força nas redes sociais após o primeiro turno das eleições de 2026. Entre 5 e 17 de outubro, foram identificados 6.901 ataques a jornalistas e veículos de comunicação no X e no Instagram, uma média de cerca de 531 agressões por dia. O resultado representa um aumento de 62,4% em relação à média diária registrada na última etapa do primeiro turno, quando eram contabilizados aproximadamente 327 ataques por dia.
Os dados fazem parte do quinto levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), realizado pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Desde o início do monitoramento, em 16 de agosto, a média diária de ataques cresceu 182,6%, evidenciando como a violência digital contra a imprensa se intensificou ao longo da campanha eleitoral.
O encerramento do primeiro turno, em 4 de outubro, não significou uma redução das agressões. Pelo contrário: a divulgação dos resultados, os posicionamentos políticos e a reorganização das campanhas para a disputa presidencial deram continuidade às discussões nas redes, frequentemente acompanhadas de ataques a profissionais e organizações jornalísticas.
Dos registros identificados no início do segundo turno, 4.307 ocorreram no Instagram e 2.594 no X. A violência também alcançou um número maior de profissionais: 142 jornalistas distintos foram atingidos, o maior contingente entre os cinco levantamentos realizados até então. Além deles, 152 veículos de comunicação apareceram entre os alvos.
Disputa presidencial concentra quase todos os ataques
Com a definição das eleições estaduais em grande parte do país, a disputa pela Presidência passou a dominar ainda mais as discussões políticas nas redes sociais. Esse movimento também apareceu nos ataques à imprensa.
Entre os 4.949 ataques classificados por esfera eleitoral, 4.858 estavam relacionados à disputa presidencial, o equivalente a 98,2%. Outros 91 registros, ou 1,8%, foram associados a eleições estaduais.
Na última etapa do primeiro turno, os ataques relacionados à eleição presidencial representavam 83,9% dos casos classificados nessa categoria. A diferença de 14,3 pontos percentuais mostra como a violência contra a imprensa passou a acompanhar ainda mais de perto a disputa nacional entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
As agressões também estiveram relacionadas à cobertura das entrevistas dos candidatos à TV Globo, realizadas em 15 e 16 de outubro. A divulgação de um almoço de Flávio Bolsonaro com integrantes da direção do Grupo Globo, sem encontro equivalente com Lula, alimentou acusações de favorecimento político e ataques à emissora por usuários de diferentes posicionamentos.
No X, a hashtag ofensiva #GloboLixo apareceu 99 vezes no levantamento, enquanto #GloboGolpista e #GloboContraOPovo foram identificadas em 40 e 18 publicações, respectivamente.
O Grupo Globo permaneceu entre os principais alvos do monitoramento. No Instagram, a TV Globo recebeu 530 ataques, seguida pela Folha de S.Paulo (238), GloboNews (205), Estadão (167) e O Globo (134). As mensagens frequentemente buscavam desacreditar a cobertura jornalística por meio de acusações de parcialidade, insultos e ataques pessoais.
Mulheres continuam concentrando ataques individuais
A ampliação do número de jornalistas atingidos não eliminou as diferenças de gênero observadas durante o primeiro turno. Embora os homens tenham sido maioria entre os 142 profissionais identificados no período — 91 homens e 51 mulheres —, as jornalistas receberam a maior parte dos ataques direcionados a pessoas específicas nas duas plataformas.
No X, foram 193 ataques contra mulheres, equivalentes a 56,4% das agressões individuais. No Instagram, elas receberam 436 ataques, ou 58,1% dessa categoria.
Os percentuais são inferiores aos registrados entre 13 e 26 de setembro, quando as mulheres concentraram 77,3% dos ataques individuais no X e 79,1% no Instagram. Ainda assim, os resultados mostram que a violência permaneceu desproporcional: um número menor de mulheres recebeu mais mensagens ofensivas do que os homens identificados na pesquisa.
Entre os profissionais mais atingidos no Instagram estavam Míriam Leitão, com 131 ataques, e Renata Lo Prete, com 65. O levantamento também identificou ofensas misóginas e mensagens de incentivo à violência física e à morte, demonstrando que parte das agressões ultrapassou as acusações de parcialidade e atingiu diretamente a segurança das profissionais.
Toxicidade permanece relativamente estável nas plataformas
A análise de toxicidade realizada pelo ITS Rio, por meio da ferramenta Perspective API, do Google, apontou uma média de 36,6% no X e 22,2% no Instagram no início do segundo turno. Os resultados indicam relativa estabilidade em relação ao período anterior, quando os índices eram de 36,9% e 23,4%, respectivamente. As pequenas variações mostram que, apesar do aumento no número de ataques à imprensa, os níveis de toxicidade da linguagem permaneceram próximos aos registrados na etapa anterior.
A ferramenta utiliza uma escala de 0 a 100% para estimar a probabilidade de um conteúdo ser percebido como tóxico, considerando características como linguagem ofensiva e insultos. Quanto mais próximo de 100%, maior essa probabilidade. O indicador complementa a contagem de ataques ao permitir observar as características da linguagem utilizada nas publicações analisadas.
Da violência nas redes às ameaças fora delas
Casos registrados logo após o primeiro turno mostram que os riscos não se limitam às plataformas digitais. Em Vitória da Conquista (BA), a jornalista Victória Lôbo, diretora e cofundadora do Conquista Repórter, passou a receber ataques a partir de 5 de outubro. As mensagens incluíam ofensas racistas, misóginas e xenofóbicas, além da exposição de seus dados pessoais e ameaças à integridade física. Outro integrante da equipe, Afonso Ribas, foi alvo de ofensas homofóbicas.
As agressões ocorreram após a publicação de conteúdos do veículo e se agravaram nos dias seguintes, levando ao registro de um boletim de ocorrência. O episódio evidencia a vulnerabilidade de iniciativas de jornalismo local, especialmente quando a violência atinge profissionais que trabalham em equipes pequenas e mantêm contato próximo com as comunidades que cobrem.
Outro caso envolveu o comunicador popular Mateus Fernandes, que declarou apoio a Lula no segundo turno e participou de uma mobilização de influenciadores. Entre 7 e 12 de outubro, ele recebeu oito ameaças de morte, algumas com referências ao nazismo e à supremacia branca. Seu endereço residencial foi divulgado nas redes sociais, e ele precisou deixar a própria casa por medo de sofrer uma agressão.
Mateus registrou boletim de ocorrência, e o caso foi encaminhado ao Ministério Público de São Paulo. O caso evidencia como a exposição de informações pessoais e as ameaças digitais podem produzir consequências concretas para a segurança de comunicadores que participam do debate público.
Sobre o monitoramento
As informações apresentadas neste monitoramento resultam de uma análise sistemática de publicações no X e no Instagram, com dados coletados e processados pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo. A CDJor publica boletins quinzenais para acompanhar a evolução dos ataques à imprensa durante a campanha eleitoral.
A metodologia considera publicações e comentários que envolvem candidatos, jornalistas e veículos, além de 652 termos e hashtags ofensivos. Os conteúdos filtrados passam por processamento e análise para identificar os ataques, suas características e o gênero dos jornalistas atingidos.